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POR QUE AS PESSOAS FICAM TANTO TEMPO EM UM RELACIONAMENTO ABUSIVO?

Agosto Lilás, alerta sobre violência ocntra mulher - Crédito Prostock-Studio by Istock Images

 

Psicóloga explica porque não é tão simples reconhecer uma relação de violência psicológica e romper o relacionamento mesmo depois de violência física

“Agosto Lilás” faz um alerta sobre a violência doméstica e familiar contra a mulher. E o recente caso de agressão do DJ Ivis contra sua ex-mulher, Pamella Holanda, é mais um entre os milhares de casos de mulheres que sofrem cotidianamente com um relacionamento abusivo. Para se ter ideia, em 2020, as plataformas do Ligue 180 e do Disque 100 registraram mais de 105 mil denúncias de violência contra a mulher. Deste total, 72% são referentes a violência doméstica e familiar.

As agressões contra Pamella Holanda repercutiram no país e levantaram novamente o debate sobre este tema. Em diversas entrevistas ela alega que as agressões começaram verbalmente com palavrão, grosserias, quando ela estava grávida de seis meses e logo depois começaram agressões físicas de puxar cabelo, segurar pelo pescoço, mas que ela achava que ele mudaria com o nascimento da filha, e ela mesmo disse ‘Tive medo, vergonha, eu estava realizando um sonho, eu estava grávida. Sempre quis ser mãe”.

O que leva uma pessoa a ficar tantos meses, anos, em um relacionamento tóxico, abusivo, alguns com violência psicológica apenas, e outros que chegam a agressões físicas?. A psicóloga e psicoterapeuta Sabrina Matias explica o porquê não é tão simples dar um fim a esse tipo de relacionamento e quem vê de fora também não consegue compreender.

“O que caracteriza uma relação abusiva é o excesso de poder que uma pessoa cria sobre a outra e, o que ocorre na maioria das vezes é que o abusado não se dá conta de que está sendo controlado. Com o passar do tempo, o abusador vai dominando cada vez mais a situação e o outro vai cedendo, recuando, perdendo a sua liberdade e, consequentemente, deixando o abusador mais forte. Na maioria dos casos, a violência psicológica costuma antecipar a violência física. Ela é marcada por xingamentos, humilhações, menosprezo, fazendo com o que o abusado fique com a autoestima cada vez mais baixa. É como se ele fosse engolido pelo abusador, e não consegue terminar o relacionamento”, explica.

De acordo com a psicóloga, para quem vê a situação de fora, esse comportamento de aceitar ser controlado é totalmente incompreensível e inimaginável e inconscientemente, essas pessoas podem deixar a vítima ainda mais frágil. “É muito comum comentários como, por exemplo, ‘você não termina porque gosta disso’, ou ‘você continua com ele pelo dinheiro’, ou ‘não tem vergonha na cara’, quando, na verdade, o abusado está vivendo um ciclo vicioso que, muitas vezes, não consegue enxergar”, ressaltou.

Sabrina explica que este ciclo nas relações abusivas é um comportamento padrão. No primeiro momento há a tensão, a irritabilidade e a agressão. Depois vem o arrependimento, a promessa de que irá mudar e a reconciliação em clima de lua de mel. “E é este o momento onde há uma manipulação muito grande por parte do abusador, pois tudo o que a pessoa abusada anseia e deseja é estar neste lugar de amor, de se sentir amada”, pontuou a psicóloga.

Ela explica ainda que perceber que está vivendo esse ciclo não é fácil e mesmo quando é percebido, o abusado está com a autoestima tão deteriorada e com um sentimento de incapacidade tão grande que se torna muito difícil sair de uma relação dessa sozinho.

E então vem a pergunta: Quem é essa pessoa que deixa isso acontecer? Que se coloca numa relação dessa? Segundo Sabrina, isso envolve um campo muito amplo. “O ser humano é uma imensidão de experiências, envolve criação, como ela viu os pais ou familiares próximos se relacionarem, e isso vai formando a sua base, estrutura e referência de como ela vai se vincular ao outro. Então, se ela cresceu em um ambiente familiar que o pai era abusador da mãe, seja apenas psicologicamente, a tendência é ela entender que o amor é dessa forma. E a mente dela passa a buscar aquilo que reconhece”, esclarece.

Sabrina Matias psicóloga- crédito Victoria Decuzzi

A psicóloga ainda explica que muitas vítimas se questionam ‘porque só atraio esse tipo de pessoa para mim, esses tipos de relacionamento?’, e na verdade tem a ver com as vivências e referências estruturais construídas principalmente na infância. “E ela não vai conseguir sair disso sozinha. Essa formação e estrutura mental precisa ser revista com ajuda profissional para resgatar esses sentimentos, como ela enxerga o amor, o relacionamento e ressignificar isso para melhor, para ela sair desse padrão que ela vem vivendo”, complementa.

E ao conseguir sair dessa relação, Sabrina reforça “é preciso resgatar vínculos com amigos e família. Ter o apoio deles é fundamental. Muitos saem dessa situação destroçados para a vida e totalmente traumatizados. A melhor forma de sair e ficar saudável, é reconstruir as redes de apoio, ou seja, retomar o contato com amigos e familiares, fortalecer vínculos com outras pessoas, porque o abusado provavelmente os rompeu, ficando totalmente voltado para o abusador. A pessoa precisa se sentir segura; experimentar o amor a partir desta rede e procurar terapia para ressignificar a dor e a forma de enxergar relacionamentos amorosos a partir de suas vivências”.

 

Texto by Dani Ewald Assessoria de Imprensa

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